A Primavera insiste em chegar ao quintal do meu vizinho do primeiro andar.
Vou manter um olho na floração da macieira. Nunca se sabe o que pode acontecer.
Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
| Venham mais cinco ... |



Um ano difícil chega ao fim. Horribilis a muitos títulos. A crise financeira veio para ficar, apesar da loucura natalícia nas lojas. O pior dos portugueses veio ao de cima e o "salve-se quem puder" está mais forte do que nunca.
Foi o ano do aparecimento descarado da "crítica light", a movida pelo desprezo total pelo mérito dos autores e pelo despeito pessoal. Gente do mais medíocre publicou livros que afirmam não ter o país, à excepção dela própria (dona de uma ficção inexplicavelmente recusada por todas as editoras...), escritores a sério. Os que cá andamos somos todos uma merda e a salvação virá das suas construções de lama. Para grande surpresa, estas afirmações foram recebidas e amplificadas com aplauso ou com uma cumplicidade reveladora.
Sobre este assunto, ficam registados dois dos votos de Miguel Sousa Tavares no EXPRESSO para o próximo ano: "Que, em todos os sectores da vida pública, o talento, o mérito e o trabalho triunfassem sobre a inveja, a incompetência e a mediocridade". E o segundo: "Que o país se concentrasse na defesa daquilo que é essencial: a língua, a cultura, a educação, o território, o património e a paisagem". Não creio que estes desejos se concretizem, pois como afirma Clara Ferreira Alves na mesma página "Um grande ano de 2007 seria aquele em que deixássemos de ter o desejo, a necessidade, a obrigação, o nojo de partir". Porque "isto" não vai mudar. E "isto" é Portugal.
Por isso, para os mais sonhadores desejo que se mantenham no ar, no território das nuvens, lá, onde as vozes dos predadores não chegam. Para os que preferem andar com os pés na terra, votos de muita coragem, porque o lixo trazido pela maré baixa vai continuar a colar-se à cara das pessoas honestas.
"Narcisus", Caravaggio
DICIONÁRIO DE NOMES FAMILIARES
Se existisse um dicionário de relações familiares teria entradas assim:
FILHOS- O que sai de dentro às mães e dos olhos aos pais. Camada que recobre o coração de forma permanente e indelével. Prolongamento de nós sendo outro. Razão mais que suficiente para renunciarmos à solidão humana.
IRMÃOS- Castigo inicial que se transforma em apoio lateral com os anos. Aquele ou aquela que estará do outro lado da linha telefónica - ou do que vier a ser inventado - a pedir ou a dar ajuda. Pelo menos até que a sua nova condição familiar o/a não consuma. Quem nos dá a certeza de que nem sempre fomos assim.
PAIS- Aqueles que estavam quando ainda só eles estavam. Os que recuaram quando outros chegaram. Os que avançaram quando outros recuaram. Os que se esqueceram da idade e das dores à vista das nossas dores e sem olhar à nossa idade. Os que vão estar aqui até que, seguros pela nossa mão, deixem de o estar.
AMANTE/AMIGO/AMIGA/HOMEM/MULHER- Todo o que nos ama para lá das nossas perfeições. O elo mais frágil da cadeia. Aquele em que nos apoiamos com mais força por ser do mesmo tamanho que nós e estar treinado no nosso passo de saltador de valas inundadas. O que pode mudar e quase sempre muda. O indispensável.

A LUZ ARTIFICIAL DAS LÂMPADAS
Vamos dar pulseiras de ouro um ao outro e fantasiar que ainda nos amamos. Vamos cobrir a mesa com bolo-rei, broas de mel e rabanadas, enquanto sorrimos às crianças estonteadas que somos nós correndo à volta da mesma mesa. Ligar alto a televisão para não ouvirmos a chuva que cai na casa. No interior da nossa própria casa.
Este natal vamos descongelar um peru e enfiar-lhe no peito aberto pão, castanhas e as suas próprias vísceras (banhadas em vinho do porto, pois claro, para que não saibam a entranhas e o corpo de onde vieram as não rejeite, por impuras). E quando a gordura arder sobre a pele sem penas vamo-nos concentrar no cheiro para não pensarmos que na rua ao lado dorme, sobre um cartão, um outro corpo imerso em álcool. Este natal vamos de novo ser caridosos e beijar o pé do menino enquanto nos sentimos a melhor pessoa à face da Terra. Os lábios bem apertados para que não nos tomem por fracos capazes de entender que cada um tem os seus próprios pés e que só houve Um capaz de beijar sem escolher.
Este natal vamos enrolar as pérolas à volta do pescoço e simular que exibimos o coração. Ou, para lá do condomínio, carregar o carro do hiper com coisas que não poderemos pagar mas cuja dívida será como um colar de pérolas em volta do pescoço.
Este natal vamos ser humanos voltar a fingir que nos interessa mais alguma coisa do que travar o avanço inexorável da nossa morte.




A partir de dia 7 nas livrarias do país.



